Sistema dinâmico contínuo

Fonte: testwiki
Revisão em 09h47min de 26 de janeiro de 2025 por imported>Minorax
(dif) ← Revisão anterior | Revisão atual (dif) | Revisão seguinte → (dif)
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa

Um sistema dinâmico contínuo é um sistema dinâmico cujo estado evolui ao longo do espaço de estado continuamente de acordo com uma regra fixa.[1]

Usaremos a notação abreviada x˙, x¨, para representar as derivadas, em ordem ao tempo, de uma função x(t) que depende do tempo, e y, y, para representar as derivadas de uma função y(x) que depende de x.

Consideremos, por exemplo:


x˙=dxdtx¨=d2xdt2y=dydxy=d2ydx2

Equações diferenciais de primeira ordem

Uma equação diferencial ordinária ou em forma abreviada, EDO é uma equação que envolve uma função de uma única variável, por exemplo, y(x), e as suas derivadas; a variável x pode aparecer também na equação.

Se a única derivada que aparece na equação for a derivada de primeira ordem, a equação é designada por equação diferencial ordinária de primeira ordem. Assim, a forma geral das EDO de primeira ordem é F(x,y,y)=0, mas vamos considerar unicamente as equações que possam ser escritas como uma ou mais equações da forma

y=f(x,y)

Dois exemplos de EDO de primeira ordem são os seguintes:

yycos(x)=3xy2sin(y)y˙=35yy

a função em questão, y nos dois casos, é chamada variável dependente. A variável da qual depende a função é designada de variável independente.

Na primeira equação acima, a variável independente é x. No segundo caso, a variável independente não aparece na equação, mas a partir da derivada y˙ torna-se evidente que a variável independente é t.

Uma solução de uma EDO, num dado intervalo, é qualquer função f de uma variável que verifique a equação, quando substituída pela variável dependente.

Campo de direções

Campo de direções da equação y' = y + x , e a solução que passa pelo ponto o (x0,y0)

É possível descobrir muita informação importante sobre as soluções da equação como a partir de uma análise geométrica simples da função

f(x,y).

A função f(x,y) define, em cada ponto do plano (x,y), o declive que deverá ter uma função y(x) que seja solução da EDO.

O campo de direções é um gráfico do plano (x,y), onde em alguns pontos aparece um vector com declive igual ao valor de f(x,y) nesse ponto. Assim, as soluções da equação diferencial deverão ser as curvas tangentes a esses vectores. Por exemplo, A figura ao lado mostra o campo de direções da equação y=y+x, e uma solução.

Existem, em geral, muitas soluções de uma equação diferencial de primeira ordem. Dado um valor inicial y(x0)=y0, é possível calcular a derivada y no ponto x0, de acordo com a equação diferencial, a derivada nesse ponto é igual a f(x0,y0).

E geralmente é possível encontrar uma solução particular que passe pelo ponto (x0,y0) e com derivada igual a f(x,y) em cada ponto.

O problema de valor inicial:

y=f(x,y)y(x0)=y0

consiste em encontrar a solução particular que passa pelo ponto (x0,y0).

Sistemas dinâmicos de primeira ordem

Para introduzir alguns conceitos básicos que serão essenciais , vamos analisar dois sistemas dinâmicos simples: um sistema em queda livre e um circuito RC. Nas próximas seções generalizaremos essa análise ao caso de outros sistemas, que podem aparecer em campos muito diversos, diferentes da dinâmica e da teoria de circuitos.

Queda livre

Consideremos primeiro o caso de um objeto que cai livremente dentro de um tubo com vácuo. Nessas condições, a única força externa que atua sobre o sistema é o seu peso, mg, e a segunda lei de Newton para este sistema é:

ma=mg

A massa do objecto é eliminada nos dois lados da equação, e a aceleração instantânea a é igual à derivada da velocidade, v˙. Assim, obtemos

v˙=g

a aceleração será independente da massa ou forma do objecto, e igual à aceleração da gravidade, g. O sinal negativo é devido a estarmos a considerar o sentido positivo da velocidade (e da aceleração) de baixo para cima.

Campo de direções da equação v˙=g

O campo de direções para a equação diferencial é formado por vetores paralelos, todos com declive igual a g (figura ao lado).

No gráfico apresentado é fácil ver que as soluções da equação são rectas com declive igual a g.

A velocidade diminui continuamente a uma taxa de 9.8m/s cada segundo.

A solução que se mostra na figura anterior corresponde a um objecto que foi lançado verticalmente para cima (velocidade positiva), com uma velocidade inicial de 22 m/s. A velocidade decresce até zero, aproximadamente dois segundos mais tarde, no ponto mais alto da trajetória, e continua a diminuir passando para valores negativos, que indicam que o objecto está a descer.

Se o sistema em queda livre não estiver dentro de um tubo de vácuo, existe outra força externa que não pode ser desprezada: o atrito com o ar. A força de atrito com o ar é sempre oposta à velocidade e depende da forma do objecto e do quadrado do módulo da velocidade.

A expressão matemática para essa força é

Fa=12CdρA|v|v

onde A é a área da secção transversal do objeto, ρ é a massa volúmica do ar, e Cd é uma constante, sem unidades, que depende da forma geométrica; para esferas, Cd tem o valor de 0.5, e para um pára-quedas circular é aproximadamente 0.8.

O produto |v|v garante um sentido oposto à velocidade; se o objecto desce, v<0, e força de atrito será para cima (|v|v positivo).

Se objeto sobe, v>0, e a força de atrito será para baixo (|v|v negativo).

A segunda lei de Newton para o objecto em queda livre é

mv˙=mg12CdρA|v|v

Para poder desenhar o campo de direções, será preciso substituir os valores numéricos dos parâmetros.

Alguns valores realistas para um pára-quedista são: Cd=0.8, m=70 kg e A=7m2.

A aceleração da gravidade é aproximadamente g=9.8m/s2.

A massa volúmica do ar varia com a temperatura, a umidade relativa e a altura sobre o nível do mar. À temperatura ambiente e alguns metros por cima do nível do mar, a massa volúmica do ar é aproximadamente 1.2kg/m3.

Assim, em unidades SI, a equação é igual a

v˙=9.80.048|v|v

Circuito RC

Circuito RC

Um circuito RC é constituído por um capacitor, em série com uma resistência R e uma fonte de tensão com força eletromotriz constante, ε.

A soma algébrica das diferenças de potencial nos três elementos do circuito, deverá ser nula. A diferença de potencial na fonte é ϵ, a diferença de potencial na resistência é RI e a diferença de potencial no capacitor é Q/C

RI+QC=ε

Toda a carga que passa pela resistência, ou sai de uma das armaduras do capacitor, ou é armazenada nessa armadura. Isso implica que a corrente através da resistência é igual à derivada da carga no capacitor. A equação reduz-se a uma equação diferencial para a carga no capacitor em função do tempo

Q˙=εRQRC

Para desenhar o campo de direções, vamos substituir alguns valores típicos dos elementos do circuito:

R=4kΩ, C=250nF e ε=5V.

Convém usar um sistema de unidades apropriado, para evitar os erros numéricos associados aos números muito grandes ou muito pequenos. Usaremos unidades de micro-coulombs, μC, para a carga, e o tempo em ms.

Nesse sistema de unidades, e substituindo os valores da resistência, capacidade e força eletromotriz, a equação toma a forma

Q˙=1.25Q

Sistemas autônomos

Considerando o sistema na expressão :

x˙=f(x)

Nesse caso a função f não depende da variável independente t. Do ponto de vista físico, a evolução da variável independente não depende do instante inicial; isto é, a partir de uma velocidade inicial o movimento do sistema será exatamente o mesmo, independentemente do instante em que o sistema obteve essa velocidade inicial. Se repetirmos uma experiência de queda livre uns dias mais tarde, o resultado da experiência será o mesmo.

Do ponto de vista geométrico, as soluções formam famílias de curvas idênticas, deslocadas na direção do eixo horizontal. O campo de direções é invariante se for deslocado na horizontal (eixo do tempo).

Esse tipo de equações diferenciais, em que a função f não depende da variável independente, são designadas de equações diferenciais autônomas. São equações muito importantes, pois aparecem em muitos problemas e inclusivamente nos problemas que conduzem a equações não autônomas, é sempre possível transformar as equações num sistema de equações autônomas.

Assim, a partir desta seção vamos estudar unicamente sistemas autônomos, em que as equações do sistema são equações diferenciais autônomas. Um sistema dinâmico autônomo de primeira ordem é um sistema caracterizado por:

  • Uma variável dependente do tempo, x(t), que designamos por variável de estado
  • Uma equação diferencial ordinária, autônoma, de primeira ordem: x˙=f(x) que define a evolução da variável de estado, a partir de um estado inicial x0, e designaremos de equação de evolução.

Retrato de fase

Os pontos fixos de um sistema dinâmico contínuo, de primeira ordem, são os pontos onde a derivada da variável de estado é nula. Nesses pontos o estado do sistema permanece constante.

O retrato de fase de um sistema dinâmico é um esboço do campo de direções, mostrando os pontos fixos e algumas soluções que começam ou terminam nesses pontos. Os pontos fixos representam-se por meio de um ponto.

Como a derivada x˙ num sistema autônomo (equação) depende apenas da variável de estado, x, o declive do campo de direções é o mesmo em todos os pontos com o mesmo valor de x.

Retrato de fase para a velocidade de uma partícula, onde vt designa a velocidade terminal.

Assim, para representar o campo de direções, basta desenhar a projeção do campo ao longo do eixo da variável de estado (eixo vertical). O retrato de fase será uma linha onde se mostram os pontos fixos e as direções das trajetórias.

O retrato de fase do campo da é apresentado na figura ao lado.

A velocidade terminal obtém-se a partir da equação da segunda lei de Newton para o objecto em queda livre, no ponto em que a derivada for igual a zero

vt=2mgCdρA

Assim, neste caso, existe um único ponto fixo, correspondente à velocidade terminal.

Na região à esquerda da velocidade terminal, do retrato de fase da figura anterior, o lado direito da segunda lei de Newton para o objecto em queda livre é positivo e, portanto, a derivada da velocidade é positiva. Tal fato é indicado pela seta que aponta para a direita.

A solução que se aproxima do ponto fixo (velocidade terminal) pela esquerda, corresponde ao caso em que no instante inicial o pára-quedista está a descer com uma velocidade com módulo maior que a velocidade terminal; o pára-quedas trava a queda até que o pára-quedista alcança a velocidade terminal. O ponto fixo é um nó atrativo; todas as soluções aproximam-se dele.

Retrato de fase de um circuito RC

No caso do circuito RC, que também é um sistema autônomo de primeira ordem, o retrato de fase é semelhante a da partícula em queda.

O ponto fixo é o ponto Q=1.25, que faz com que a derivada seja nula. É um nó atrativo; a carga no condensador aproximar-se-á de 1.25μC, independentemente do seu valor inicial.

Em geral, o ponto fixo localiza-se em εC. Os valores negativos da carga representam situações em que o condensador encontra-se carregado em modo inverso à bateria.

Método de Euler

Os métodos de resolução numérica de equações diferenciais ordinárias de primeira ordem

x˙=f(x,t)

consistem em calcular o valor da variável de estado numa sequência discreta de instantes {t0,t1,t2,}, usando alguma estimativa dos valores médios das derivadas durante cada intervalo de tempo [ti,ti+1], a partir da função f(x,t) que é a derivada instantânea.

Podemos usar uma sequência de instantes ti igualmente espaçados entre si, com incremento de tempo h:

{t0,t0+h,t0+2h,}tn=t0+nh

assim, substituiremos a variável contínua x(t) por uma variável discreta:

{x0,x1,x2,}xn=x(tn)=x(t0+nh)

O sistema contínuo é substituído por um sistema discreto. A equação de evolução desse sistema discreto dependerá do método numérico usado para fazer a estimativa do valor médio da derivada em cada intervalo [tn,tn+h].

Método de euler para calcular as soluções de um sistema contínuo de primeira ordem.

Existem muitos métodos numéricos para resolver sistemas dinâmicos contínuos. Nesta secção apresentaremos um método muito simples, o método de Euler.

Usando a notação introduzida na equação, a definição da derivada x˙, no instante tn=t0+nh, escreve-se

x˙(tn)=limh0x(tn+h)x(tn)h=limh0xn+1xnh

Assim, se h for suficientemente pequeno, a equação anterior conduz a uma forma aproximada de calcular xn+1 em função do estado, xn, e da derivada no instante tn.

xn+1xn+hx˙(tn)

Combinando essa aproximação com a primeira equação da seção (método de euler), , obtemos a equação do sistema discreto equivalente:

xn+1=xn+hf(tn,xn)

A condição inicial (t0,x0) permite-nos calcular (t1,x1), usando a equação de recorrência , e assim sucessivamente podemos calcular (t2,x2), (t3,x3),etc.

É de salientar que a aproximação que se fez consiste em admitir que o valor médio da derivada x˙ no intervalo [tn,tn+h] é igual ao valor da derivada no instante inicial do intervalo.

Do ponto de vista gráfico, o que estamos a fazer é deslocarmos-nos, desde o ponto (t0,x0), uma distância h, segundo o eixo t, na direção do campo de direções, como se mostra na figura anterior.

Como mostra a figura, a direção do campo no ponto i já não é a mesma no ponto i+1e, assim, a curva obtida não segue perfeitamente o campo de direções. Mas se h for suficiente pequeno, obtém-se uma boa aproximação.

Resolução analítica das equações diferenciais

Existem alguns tipos de equações ordinárias de primeira ordem que podem ser resolvidas analiticamente ,as quais veremos a seguir.

Equações de variáveis separáveis

Se a equação tiver a forma

dydx=f(x)g(y)

é designada por equação de variáveis separáveis. Para resolver este tipo de equação, primeiro observemos que a primitiva da função g(y) pode ser calculada da seguinte forma

g(y)dy=g(y(x))dydxdx

a equação diferencial pode ser escrita como

g(y)dydx=f(x)

a primitiva do lado esquerdo, em ordem a x, é igual à primitiva de g(y), em ordem a y, como acabamos de ver; assim, temos que

g(y)dy=f(x)dx+c

Se conseguirmos calcular as primitivas a cada lado da equação, obteremos a solução analítica da equação diferencial.

Equações lineares

Uma equação diferencial linear, de primeira ordem, tem a forma geral

dydx+p(x)y=f(x)

onde p(x) e f(x) são quaisquer duas funções que dependem apenas de x (podem também ser constantes).

No caso particular em que a função p for uma constante a, o lado esquerdo terá alguma semelhança com a seguinte derivada

dydx(yeax)=eax(y+ay)

consequentemente, se multiplicarmos os dois lados da equação diferencial por eax obteremos:

dydx(yeax)=eaxf(x)yeax=eaxf(x)dx+c

No caso geral em que p depender de x, usaremos a primitiva de p(x) em vez de ax, e o fator integrante pelo qual deveremos multiplicar a equação será

μ(x)=exp[p(x)dx]

multiplicando os dois lados da equação diferencial por μ obtém-se

ddx(yμ(x))=μ(x)f(x)yμ=μ(x)f(x)dx+c

Equações exatas

Qualquer equação de primeira ordem pode ser escrita na forma [1]

dydx=M(x,y)N(x,y)

que conduz a

M(x,y)dx+N(x,y)dy=0

esta forma é semelhante à expressão da diferencial de uma função de duas variáveis

dF(x,y)=Fxdx+Fydy

Esta equação sugere-nos admitir que existe uma função F(x,y) cujas derivadas parciais são iguais a M(x,y) e N(x,y); no entanto a segunda derivada parcial de F seria

2Fxy=My=Nx

Assim, para que a conjectura da existência da função F(x,y) seja consistente, é necessário que as funções M e N verifiquem a seguinte condição

Nx=My

nesse caso diz-se que a equação é exata e existirá uma função F(x,y) tal que a equação diferencial é equivalente à condição

dF(x,y)=0

assim, a solução geral da equação diferencial será a família de curvas

F(x,y)=c

A função F calcula-se encontrando a função cujas derivadas parciais sejam iguais a N(x,y) e M(x,y).

Equações homogêneas

Uma equação de primeira ordem diz-se homogênea se tiver a seguinte forma geral

dydx=f(yx)

para resolver esse tipo de equação usa-se a substituição

v=yxdydx=v+xdvdx

a qual torna a equação numa equação de variáveis separáveis. Para reconhecer facilmente se uma função racional é da forma f(y/x) observam-se os expoentes de cada termo no numerador e denominador (soma do expoente de x mais o expoente de y) os quais deverão ser iguais.

Por exemplo, das duas funções seguintes as duas primeiras tem a forma f(y/x) mas a terceira não

xy2x3yx2y2cos(x/y)xy+5xy+y2+x

Equação de Bernoulli

Um tipo de equação diferencial que pode ser reduzida a equação linear, é a chamada equação de Bernoulli, definida por

dydx+p(x)yn=f(x)y

onde n é um número racional, diferente de 0 e de 1. A substituição

v=y1nv=(1n)yny

transforma a equação de Bernoulli numa equação linear.

Equação de Riccati

Outra equação redutível a equação linear é a equação de Riccati:

dydx=a(x)+b(x)y+c(x)y2

onde a(x), b(x) e c(x) são três funções que dependem de x. Se conhecermos uma solução particular da equação, por exemplo y1, a seguinte mudança de variável transformará a equação de Riccati numa equação linear [1]

y=y1+1vdydx=dy1dx1v2dvdx Predefinição:Referências

Ligações externas

Predefinição:Multicol Livros

Predefinição:Multicol-break Cursos

Predefinição:Multicol-break Organizações

Predefinição:Multicol-break Software

Predefinição:Multicol-break Predefinição:Multicol-end

Ver também

Predefinição:Sistemas de ciência

  1. 1,0 1,1 1,2 [ Introdução aos sistemas dinâmicos. Porto: Jaime E. Villate, 27 de fevereiro de 2007. 204 págs]. Creative Commons Atribuição-Partilha (versão 3.0) ISBN972-99396-0-8. Acesso em 09 julho. 2013.