Transformada discreta de Mellin

Fonte: testwiki
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A amostragem de uma função contínua (à esquerda) por meio do pente de Dirac (centro) resulta numa função discretizada (à direita).

Em matemática a transformada discreta de Mellin é a versão discreta da transformada de Mellin. Em aplicações práticas de Física e Engenharia, em particular a análise de sinais, ela é mais útil que a versão contínua, porque se presta melhor ao processamento digital.

Uma transformada discreta se aplica a uma sequência de n valores f(k), com n e k inteiros positivos; essa sequência é normalmente obtida de um sinal contínuo, que é expresso por uma função contínua f(t), por meio de um processo de discretização adequado. Além da discretização, às vezes é também necessário limitar o suporte das funções de entrada e de saída.

A transformada discreta de Mellin é uma relação linear, expressa pela equação abaixo, entre os coeficientes fk da sequência de entrada f(k) e os coeficientes Fk da sequência de saída F(k):

Fk=1ln(a)j=mm+n1bn(r+1)fkei2πjkln(b)fk=𝒟{f(ν)}(bk)a,b,r(R),a,b,r>0m,n(N),m,n>0(1a)

onde o operador 𝒟 denota o processo de discretização, que determinará também os valores adequados para a, b, r e m em função do número de amostras n e dos intervalos de definição de f(k) e de Fk.

A função definida por (1a) é periódica, com período τ = 1ln(b). As fórmulas podem ser calculadas de forma computacionalmente econômica com auxílio de algoritmos como a transformada rápida de Fourier (FFT) ou variações desta, o que favorece o seu uso em aplicações práticas (ver exemplo abaixo)[1].


Conceitos

Processo de discretização

O processo de discretização é similar àquele aplicado para se obter a transformada discreta de Fourier, uma vez que as transformadas de Mellin e de Fourier possuem muitas similaridades.

A base para a definição da transformada discreta de Mellin é a versão dual (ou "na variável β") da transformada contínua de Mellin. Na equação (2a), um pente (aritmético) de Dirac é usado para amostrar os valores da função contínua F¯(β), que é a transformada dual de f(ν):

F(k)=1ln(a)k=F¯(β)δ(βkln(a))=1ln(a)F¯(β)comb(β1ln(a))(2a)

O fator de escalamento 1ln(a) foi introduzido por conveniência.

Como o pente aritmético de Dirac é a transformada dual de Mellin do pente geométrico de Dirac Δar, a equação (2a) pode ser escrita como


F(k)=1ln(a)F¯(β)comb(β1ln(a))=¯{(f(ν)}¯{Δar(ν)}


e, devido à propriedade da convolução de Mellin (ou convolução multiplicativa), podemos escrever

F(k)=¯{f(ν)Δar(ν)}

onde o operador denota a convolução de Mellin. Aplicando-se a transformada inversa, decorre imediatamente a propriedade

f(k)=fd(a,k)=¯1{F(k)}=f(ν)Δar(ν)=k=ak(r+1)f(akν)(2b)

A interpretação geométrica da equação (2b) é que a sequência f(k) é idêntica à somatória de infinitas versões da função original f(ν), cada uma sofrendo uma dilatação diferente. Por isso, f(k) é chamada a forma dilatocíclica (ing. dilatocycled form) de f(ν) com razão a. Para evitar a confusão com outras formas, a partir deste ponto essa será denotada por fd(a,k). Essa função é periódica com período τa = 1ln(a).

A equação (2b) pode ser entendida como uma condição de existência da transformada discreta de Mellin (e da possibilidade da inversão): se o suporte da função de entrada f(ν) for o intervalo [ν12], é preciso escolher o valor de a tal que aν2ν1 para que fd(a,k) possua o mesmo suporte.

Em aplicações práticas, apenas a discretização mostrada em (2a) é insuficiente. Como é preciso trabalhar com um suporte finito, é preciso que a função F(β) seja periódica, de forma que toda a informação esteja concentrada em um intervalo [β12]. Isso se consegue por meio da amostragem da função de entrada f(ν) por meio do produto invariante com o pente geométrico de Dirac:

fg(b,ν)=f(ν)Δbr(ν)=k=bkf(bk)δ(νbk)(2c)

onde fg(b, ν) é chamada a forma amostrada geometricamente (ing. geometrically sampled form) de f(ν). A transformada dual de Mellin de fg(b, ν) será

¯{fg(b,ν)}=¯{f(ν)Δbr(ν)}=¯{f(ν)}*¯{Δbr(ν)}=F¯(β)*1ln(b)comb(β1ln(b))


¯{fg(b,ν)}=1ln(b)k=F¯(β)[βkln(b)](2d)


O resultado é uma função periódica com período τb = 1ln(b). O período deve ser maior que o suporte de F(β), portanto b<e1β2β1.

A aplicação de ambos os processos acima leva à definição da transformada discreta de Mellin, como resumido abaixo.

O processo de discretização é similar para muitas transformadas discretas. A função original (em azul, acima) e sua função transformada contínua (em vermelho, abaixo) aparecem à esquerda; fazendo-se a função original periódica, a transformada torna-se uma sequência de valores discretos (segundo grupo); amostrando-se a função original, a transformada torna-se periódica (terceiro grupo); aplicando-se ambos os processos, obtém-se um par de funções discretas e periódicas (à direita).

Resumo

A transformada discreta de Mellin de uma sequência de valores f(k) é dada pela expressão (2e), que é uma combinação de (2a) e (2d). A sequência f(k) é obtida de uma função contínua f(ν) por meio dos processos sucessivos de dilatação cíclica e de amostragem geométrica, denotados pelo operador 𝒟 e descritos pelas equações (2b) e (2c), com parâmetros a e b que devem ser escolhidos de acordo com a extensão do suporte das funções f(ν) e sua transformada dual de Mellin. Além disso, faz-se a = bn, onde n é o número de amostras a ser trabalhado, para assegurar a periodicidade do resultado; com isso, o período resultante é τb = 1ln(b)=nln(a), isto é, um múltiplo de τa.

f(k)=𝒟{f(ν)}=fdg(a,b,k)F(k)=k=Fkδ(βknln(b))Fk=1nln2(b)j=F¯(kjnnln(b))(2e)[1]

Fórmulas para as transformadas direta e inversa

A equação (2e) expressa os coeficientes Fk em função da versão contínua da transformada. Uma fórmula em função dos coeficientes fk da sequência de entrada é obtida a partir da fórmula de definição da transformada dual de Mellin


¯{f(ν)}=0f(ν)νr+i2πβdν|r>0


que deve produzir o mesmo resultado de (2e). Isso resulta em


F¯(β)=k=bn(r+1)fdg(bk)ei2πkβln(b)(2f)

que é uma função periódica com período 1ln(b) = τb. Por inspeção, obtemos


αk=bn(r+1)fdg(bk)(2g)


que são os coeficientes da expansão em séries de Fourier de F¯(β). Isso permite o cálculo da fórmula (1a) pelas técnicas usuais relacionadas a essas séries, e também da transformada inversa

fk=1nj=ll+n1bn(r+1)Fkei2πjkln(b)fk=𝒟{f(ν)}(bk)b,r(R),b,r>0l,n(N),l,n>0(1b)

onde l = β1· ln(a)[1].


Exemplos de aplicação

Cálculo de transformada de wavelet

A transformada de wavelet de uma função real f(t) é dada por


W(a,b)=1|a|f(t)ψ*(tba)dt(3a)


onde o símbolo * indica o conjugado complexo e a função φ(t) é a chamada "wavelet-mãe". A versão discreta será representada pela mesma equação, por simplicidade. O material que se segue aplica-se às versões discretas das transformadas, apesar de estar sendo usada a notação correspondente às versões contínuas.

Não se conhece algoritmo de baixa complexidade computacional para o cálculo da equação (3a), devido à multiplicidade de formas que a wavelet pode assumir.

Mediante a aplicação do teorema de Parseval para a transformada de Fourier, podemos reescrever a equação no domínio da frequência como


W(a,b)=1|a|12π{f(t)}{ψ(tba)}*dω


Aplicando as conhecidas propriedades de escalamento e deslocamento, temos


W(a,b)=1|a|12πF(ω)[|a|Ψ(aω)ei2πbω]*dω


onde F(ω) e Φ(ω) são as transformadas de f(t) e φ(t), respectivamente. Como a função f(t) é real, vale a propriedade adicional F(-ω) = F*(-ω) e podemos escrever


W(a,b)=|a|2π(0F(ω)Ψ*(aω)ei2πbωdω+0F(ω)Ψ*(aω)ei2πbωdω)


W(a,b)=|a|2π(0F(u)Ψ*(au)ei2πbudu+0F(ω)Ψ*(aω)ei2πbωdω)|u=ω


W(a,b)=|a|2π(0F*(u)Ψ(au)ei2πbudu+0F(ω)Ψ*(aω)ei2πbωdω)


W(a,b)=|a|2π(0[F(u)Ψ*(au)ei2πbu]*du+0[F(ω)Ψ*(aω)ei2πbω]dω)


W(a,b)=|a|2π2{0F(ω)Ψ*(aω)ei2πbωdω}(3b)


O cálculo da equação (3b) é dificultado pela presença da dilatação em Ψ(aω). O emprego de algoritmos como a FFT nesse caso usualmente requer oversampling e interpolações.

Aplicando a (3b) a versão do teorema de Parseval para a transformada dual de Mellin, com r = -½, temos


W(a,b)=|a|π{0[F(ω)ei2πbω]Ψ*(aω)ω2r+1dω}|r=12


W(a,b)=|a|π{¯{F(ω)ei2πbω}¯{Ψ*(aω)}dβ}


Considerando a > 0, que é a situação usual, e aplicando a propriedade do escalamento, teremos finalmente


W(a,b)=1π{¯{F(ω)ei2πbω}¯{arΨ*(aω)}dβ}


W(a,b)=1π{¯{F(ω)ei2πbω}ai2πβ¯{Ψ*(ω)}dβ}(3c)


A equação (3c) não apresenta mais a dilatação e pode ser calculada por meio de algoritmos rápidos para cálculo das transformadas de Fourier e de Mellin. A complexidade computacional é igual a (2m+1) vezes a complexidade da FFT para um número de amostras igual a 2n, onde n e m são as dimensões da grade de discretização das variáveis a e b[2]..


Predefinição:Referências

  1. 1,0 1,1 1,2 J. Bertrand, P. Bertrand e J. Ovarlez - The Mellin Transform in A. Poularikas (org) - The Transforms and Applications Handbook, 2nd. edition, Boca Raton: CRC, 2000, Cap. 11, pp. 993 a 999
  2. J. Bertrand, P. Bertrand e J. Ovarlez - op. cit., Cap. 11, pp. 1007 a 1008